Teatro no Enem – conceito, histórico e intersecções

Por Estéfani Martins

Fonte: https://www.grupogalpao.com.br/

“A vida é o pânico num teatro sem chamas.”
(Jean-Paul Sartre)

“O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia.”
(Jean Barrault)

“A vida é uma peça de teatro razoavelmente boa com um terceiro ato mal escrito.”
(Truman Capote)

“…São infindáveis as tendências do teatro contemporâneo. Há uma permanência do realismo e paralelamente uma contestação do mesmo. As tendências muitas vezes são opostas, mas freqüentemente se incorporam umas as outras…”
(Fernando Peixoto)

“Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho.”
(Arthur Schopenhauer)


Teatro: o conceito

Teatro, palavra derivada do latim “theatrum”, esta, por sua vez, do grego “Theátron”, que significa “lugar de onde se vê”, termo de amplo uso que atinge toda a atividade teatral, da produção dramatúrgica até a realização de espetáculos. Por isso, é uma palavra usada para se referir a uma época (teatro medieval), um estilo (teatro romântico), um espaço (Teatro Amazonas), obra de um autor (teatro de Nelson Rodrigues), um grupo (Teatro Oficina) e um tipo (teatro de rua).
Manifestação artística em que um ator ou conjuntos de atores interpretam uma história para um público em um determinado local. Frequentemente, a história é previamente escrita por um autor (dramaturgo) e concebida por um realizador (diretor), que é apoiado por diversos tipos de técnicos (maquinistas, figurinistas, maquiadores, etc.), que possibilitam os elementos e artifícios para que a história possa cumprir seus objetivos, que são, notadamente, entreter, emocionar, sensibilizar, conscientizar, etc., a audiência sobre enorme diversidade de temas e intensões.

Uma breve história do teatro

O teatro é uma manifestação artística comprometida algumas vezes com sua própria linguagem, embora seja mais comumente associada à busca da verdade e ao mesmo tempo a arte de fingir quem não se é; e ao respeito por valores básicos do ser humano ou pelo apuro e zelo pela realização dramática. É uma forma de arte que remonta de forma organizada ao início das grandes civilizações e – como meio de expressão espontâneo e pragmático – ao período Pré-Histórico.
Essa forma de arte, muito melhor experienciada por meio das atuações dos atores, daí ser uma arte performática. É, desse modo, realizada por um ator ou um conjunto de atores em um palco ou algo semelhante, em que é interpretada uma história ficcional ou não, com a ajuda de técnicos e auxiliares, geralmente sob a orientação de um diretor que encena a obra escrita por um dramaturgo. O teatro apenas se realiza plenamente em cena, com a presença do público, que pode inclusive participar do espetáculo como sugerem algumas experimentações teatrais que foram desenvolvidas a partir do século XX no contexto da arte contemporânea.

De forma sistemática, para muitos estudiosos, apesar de dificuldade de comprovação material definitiva dessa teoria, o teatro como espetáculo surgiu na Grécia Antiga, no século IV a.C., como uma forma de homenagem à Dionísio – o deus do vinho, do entusiasmo, da fertilidade e do teatro – como agradecimento pelas colheitas de uva. Na Grécia, essa expressão artística ganhou o nome de teatro e foi apartada de forma clara da religião, diferente dos registros dessa relação em apresentações teatrais no Egito Antigo em homenagem e como forma de devoção a deuses como Osíris e Ísis.
Essa tradição grega começou como simples procissões nas áreas urbana e rural que foram ficando cada vez mais elaboradas até que passaram a ser apresentadas cenas inspiradas nos feitos de deuses do panteão grego, sobretudo Dionísio, com a ajuda de cantorias, danças e pequenas representações. O primeiro “diretor de coro” renomado, espécie de organizador dessas procissões, foi Téspis, que era o responsável por dirigir a procissão de Atenas. Ele concebeu o uso de máscaras no processo de encenação como forma de facilitar a visualização por parte dos espectadores dos sentimentos associados à cena que eram representados pelas feições das máscaras, para alguns historiadores elas também eram uma forma de dar maior alcance para as vozes dos atores em cena. Importante destacar que apenas os homens podiam ser atores nessa época, pois as mulheres não tinham acesso à plena cidadania na Grécia. O espaço das expressões teatrais na Grécia Antiga era o Teatro de Arena.
Nessas encenações, o “coro”, composto por narradores, que por meio de danças, cantos e atuações contavam a história de um personagem, que estabelecia um processo de interlocução com a plateia, além de ser responsável pela conclusão da peça. Podia haver ainda o “corifeu”, que era um representante do coro que também se comunicava com a plateia.
A partir dessas experiências iniciais, desenvolveu-se a tragédia grega que teve como principais autores Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Aquele se notabilizou por suas histórias sobre fatos da vida de deuses e sobre mitos, seu principal texto foi “Prometeu acorrentado”. Já Sófocles preferiu os temas mais realistas e associados à vida de figuras históricas, sua tragédia mais importante foi “Édipo Rei”. Eurípedes dedicou-se aos renegados, aos vencidos sendo, por isso, considerado precursor do drama ocidental. Seu principal texto é “As troianas”. No campo das comédias, destacou-se Aristófanes, visto como dramaturgo mais importante da comédia grega clássica.

No Império Romano, muito influenciado pela cultura Grega, a comédia toma o lugar da tragédia como forma mais importante do teatro, agora completamente separado da experiência religiosa, porque mais ligado à diversão e ao prazer. Contudo, encenações de batalhas eram também capazes de produzir grande comoção no público em especial nas arenas romanas, quando batalhas eram encenadas de forma tão realista que muitas pessoas chegavam a morrer ao longo delas, em especial cristãos e prisioneiros que eram obrigados a “encenar” os papeis dos inimigos de Roma. Ao longo do desenvolvimento da cultura romana, o teatro é convertido em um grande espetáculo de entretenimento, sobretudo no Coliseu romano.

Durante a Idade Média, sob o controle rígido da Igreja Católica, por certo período houve encenações em missas de passagens da Bíblia, entretanto pelo temor de autoridades católicas de que o caráter sagrado da missa fosse perdido, as encenações foram proibidas. Já na rua, o teatro desenvolveu-se por meio das comédias bufas voltadas para temas políticos, comportamentais e sociais, além da farsa que estereotipava tipos sociais e mesmo figuras públicas para ironizar e criticar acontecimentos do cotidiano das pessoas. Naturalmente, o palco dessas apresentações era a rua, mesmo porque as companhias que as encenavam eram mambembes e itinerantes.

No Renascimento, na Itália, desenvolve-se a “Commedia Dell’Arte” baseada no teatro popular medieval, que eterniza figuras como Arlequim, Pierrot, Colombina, Polichinelo, Pantaleão e Briguela. Na Inglaterra, a rainha Elizabeth I, entusiasta e apreciadora do teatro popular, cria um ambiente estimulante para uma produção teatral interessada em ressaltar valores nacionalistas ingleses. Nesse contexto, surge aquele que é considerado o maior dramaturgo de todos os tempos, Willian Sheakespeare, responsável pela obra teatral mais influente depois do teatro grego. Na França, o grande autor de comédias Moliére notabiliza-se por suas comédias que tanto faziam rir quanto inspiravam a plateia a repensar profundamente seus costumes e a miséria da experiência humana no que ela tem de mais cruel e mesquinho.

No século XIX, no contexto do Romantismo, desenvolve-se um teatro, de forma muito tímida se comparado ao que acontece na Literatura e nas Artes Plásticas, mais engajado politicamente e mais sensível a temas nacionalistas. Em contrapartida, interessa-se também, por outro lado, em narrar, por meio de dramas, experiências densas e profundas de pessoas em conflito com o próprio íntimo ou mesmo com as regras sociais, ou seja, torna-se também mais individualista. O Romantismo pleno e amadurecido será questionador dos cânones anteriores, pois normalmente conformistas demais. O teatro romântico ganhará notoriedade com autores como Victor Hugo (1802-1885) e obras como “Hernani” de 1830 que trata das novas e inquietantes aspirações da juventude do século XIX personificada no herói romântico que luta contra a sociedade; José Zorrilla y Moral (1817-1893), que publica o drama fantástico religioso “Don Juan Tenorio” em 1844 inspirado na conhecida história de Don Juan; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868-1918) que escreveu “Cyrano de Bergerac” em 1897 que tem um herói que se notabiliza pelo desprezo pelas convenções e pela capacidade de ser sensível, de ter sentimentos nobres e por ser capaz de se sacrificar pela felicidade alheia. Além deles destacam-se os escritores alemães Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759-1805). Em Portugal, destaca-se um importante exemplo de teatro romântico, que é a obra “Frei Luís de Sousa” (1843) de Almeida Garrett (1799-1854).
Como uma extrapolação dos ideais românticos no teatro, nasce o melodrama, em que a emoção é supervalorizada e mesmo vulgarizada, mas que, embora seja desprezado pela intelectualidade de então, faz-se um sucesso entre as camadas populares, para depois influenciar diversas experiências dramatúrgicas posteriores ao longo de todo o século XX.

Ao longo do século XIX, aconteceu uma importante mudança na composição da plateia dos teatros, antes dominadas por pessoas oriundas das mais diversas classes populares, pois passava paulatinamente por um processo de elitização, tornando-se, dessa forma, uma expressão artística mais burguesa e elitizada. Diante disso, os temas predominantes no período chamado de realista e naturalista estão mais frequentemente associados com a vida social da elite, o casamento, a riqueza, etc. Para além disso, as atuações dos atores tornam-se mais naturais e menos exageradas como ensinavam as tradições teatrais oriundas da Idade Média influenciadas pelo exagero e pela intensidade do teatro interpretado na rua, repleta de distrações para a plateia, de sons variados e de estímulos visuais que concorriam com os atores.
Dentre os dramaturgos realistas do século XIX, merecem especial destaque Henrik Ibsen (1828-1906), um dos criadores do teatro realista moderno e um provocador com peças muito críticas em relação às convenções sociais e às tradições; Anton Tchekov (1860-1904), autor de clássicos da dramaturgia mundial como “As Três Irmãs”, “Ivanov” e “O Tio Vania”; Johan August Strindberg (1849-1912), um dos pais do teatro moderno, muitos dos seus trabalhos eram considerados expressão maior da estética naturalista e expressionista; entre muitos outros.
Na estética realista, o indivíduo era visto como alguém em constante conflito com valores morais anacrônicos e alheios à condição humana, porque degradantes e estáticos para a maioria e benéficos e flexíveis para poucos.

Com o desdobramento das Vanguardas Estéticas e o estabelecimento das experimentações do Modernismo, o teatro evolui para uma manifestação artística muito interessada em discutir os problemas da sociedade, tornando-se muitas vezes uma forma aguda de crítica social, mesmo num contexto de muitas experiências nada realistas quanto à cenografia, figurinos e linguagem teatral. Um exemplo privilegiado da interferência das Vanguardas na produção teatral é o Expressionismo que influenciou montagens em que se investia na subjetividade dos personagens, dos eventos, dos lugares, etc., em contraponto às encenações objetivas e compromissadas com à “realidade” do Realismo, pois os expressionistas entendiam que a realidade aparente não era uma expressão da verdade, pois ela é subjetiva e particular. O Expressionismo, de certo modo antirrealista em termos de teatro, surge nos primeiros anos do século XX, baseado na reorganização da linguagem cênica com o intuito de valorizar a crítica social a partir de uma recriação da realidade e de dar grande importância ao subconsciente e à psique. O Expressionismo é um movimento essencialmente alemão, entre os autores que se destacaram estão Frank Wedekind (1864-1918), autor de “O Despertar da Primavera” (1891); Georg Kaiser (1878-1945), autor de “Os burgueses de Calis”, Ernst Toller (1893-1939), autor de “O home massa” (1921), entre outros.
Em resumo, uma montagem influenciada por esse movimento estético de vanguarda tem como características a distorção da realidade objetiva, a fragmentação de cenas num processo quase cinematográfico, a mudança de identidade dos personagens ao longo da trama, o caráter simbólico das coisas e das pessoas, a cenografia despreocupada com a reprodução fiel da realidade, a atmosfera associada ao sonho ou ao pesadelo com o uso de luzes irreais, etc. Um exemplo disso é o caso de parte da obra do dramaturgo Bertold Brecht, que reúne muitas dessas características com uma engajada dose de politização.
O chamado Teatro Contemporâneo inicia-se no período entre Guerras na primeira metade do século XX como um desdobramento das ideias modernistas de Vanguardas como o Expressionismo, somado ao processo de politização da arte e a uma necessidade de experimentação como forma de reinventar ou mesmo questionar a linguagem teatral mais comum até esse momento. A produção teatral, a partir de então, será marcada pela comédia social em que o humor é usado acidamente para criticar valores, costumes e anacronismos da sociedade do século XX, como é o caso muitas das obras de Willian Somerset Maugham (1874-1965) e George Bernard Shaw (1856-1950).
Caracteriza também no período a prevalência nas obras do conflito entre o novo e moderno contra o anacrônico e tradicionalista tanto no universo de personagens que se contrapõem em uma narrativa quanto um meio social que oprime e cerceia o pleno e livre desenvolvimento emocional, intelectual e psíquico dos indivíduos, são exemplos a obra T.S. Elliot (1888-1965), Tennessee Williams (1911-1983), Garcia Lorca (1898-1936), etc.
Na França, desenvolve-se o “teatro psicológico e experimental” de Jean Cocteau (1889-1963). O existencialismo de Sartre passa a influenciar também o teatro como é o caso da obra teatral de Albert Camus (1913-1960). Na Itália, Luigi Pirandello (1867-1936) renova o teatro com uma obra tremendamente original e com senso de humor muito inusitado, em sua obra destaca-se o clássico “Seis personagens à procura de um autor”. Nesse período, ainda é fundamental citar Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898-1956) em função de sua vasta e crucial importância para se entender o teatro do século XX e da criação do Teatro Épico profundamente engajado politica e socialmente, entre seus mais importantes trabalhos estão “Santa Joana dos Matadouros”, “Tambores na noite”, “Os mendigos”, “O casamento do pequeno burguês”, entre muitas outras obras.
Nos anos de 1950, desenvolve-se o chamado Teatro de Realismo Social que teve Samuel Beckett (1906-1989), com seu profundo pessimismo sobre a experiência humana, como um dos seus expoentes com obras como “Esperando Godot”, mais tarde dessa estética derivaria o Teatro do Absurdo, em que o ilógico e o irracional eram usados como meio de criticar a sociedade, para o qual Beckett também é um autor fundamental, além de Eugène Ionesco (1909-1994), que com suas peças ridiculariza as situações mais banais com um tom burlesco e insólito. Mais tarde, Jean Genet (1910-1986) e Jean Tardieu (1903-1995) dariam prosseguimento à tradição dessa estética teatral com trabalhos em que o grotesco, o ilógico, o inesperado, etc., eram usados para mostrar e muitas vezes criticar as profundezas da condição humana.

Teatro brasileiro

No Brasil, o teatro ocidental chegou no século XVI a fim de ser usado para auxiliar a propagação da fé católica entre sobretudo os povos autóctones que viviam no território brasileiro. Importante ressaltar que, entre os povos originários, manifestações artísticas teatrais, musicais, visuais e, em especial, relativas à dança eram presentes na vida cotidiana desde tempos imemoriais.
O padre espanhol José de Anchieta (1533-1597) foi um dos primeiros autores teatrais a escrever no Brasil em virtude dos autos (composição teatral) que escreveu a fim de catequizar os índios. O “Auto de São Lourenço”, escrito em tupi-guarani, português e espanhol, foi um marco da incipiente produção teatral brasileira de inspiração europeia, embora seja essencialmente uma forma teatral portuguesa utilitarista por seu objetivo catequético e orientada por interesses coloniais portugueses.
No fim do século XVIII, ainda não se pode dizer que houvesse uma produção teatral minimamente estável no Brasil e mesmo com valores culturais brasileiros, pois o Brasil ainda não possuía uma identidade cultural plenamente brasileira em praticamente toda produção artística em função do fato de ser visto como a periferia dos polos de difusão de produção cultural latina na Europa, a saber: França, Itália, Espanha e Portugal. Além disso, o Neoclassicismo impunha sobre a arte nascente brasileira em quase todos os campos valores estéticos europeus como superiores e inquestionáveis.
Um intervalo de dois séculos separou a atividade teatral jesuítica de uma produção teatral contínua no Brasil. Nesse contexto, foi a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro (1808), as influências estéticas do Romantismo, além de outros eventos históricos como a Independência (1822), a Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889), que permitiram e inspiraram o progresso contínuo do teatro brasileiro. A partir de então, começou a produção teatral marcadamente brasileira que passou a se consolidar com os trabalhos emancipadores do ator e empresário João Caetano (1808-1863) que participou em 1838 da encenação da peça “Antônio José ou O Poeta e a Inquisição”, de autoria de Gonçalves de Magalhães, que foi a primeira tragédia escrita por um brasileiro com motivações visivelmente nacionais. No mesmo ano, também foi responsável pela montagem da peça “O Juiz de Paz na Roça”, de autoria de Martins Pena (1815-1863), precursor da longa tradição de comédias de costumes na história do teatro brasileiro. Gonçalves de Magalhães, ao voltar da Europa em 1867, introduziu no Brasil a estética romântica, que iria nortear escritores, poetas e dramaturgos brasileiros como Gonçalves Dias que, além de poesia, também escreveu uma peça de grande relevância história e artística: “Leonor de Mendonça”. Mais alguns autores conhecidos comumente como prosadores e poetas, mas que também escreveram peças teatrais, são: Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Álvares de Azevedo e Castro Alves.
Ainda no século XIX, o Realismo passa a influenciar de forma modesta a dramaturgia brasileira com a montagem da peça “O mandarim” de Artur Azevedo por Joaquim Heliodoro em 1855. A pouca prevalência de ideais naturalistas no Brasil justifica-se pelo ambiente pouco receptivo, já que na Europa essa estética era guiada por interesses claramente antiburgueses, justamente quando, no Brasil, a classe social burguesa crescia e articulava-se por mais espaço na sociedade brasileira. Além disso, houve a estabilização da opereta, da comédia de costumes e do teatro de revista como os tipos de montagem preferidos do público brasileiro. Assim, no teatro, o Realismo não deriva para Naturalismo como na literatura, provavelmente por causa da preferência brasileira pelo “vaudeville”, a revista e a paródia, gêneros mais leves e humorísticos. Além de Artur de Azevedo, merece também destaque a obra de França Júnior.
Em linhas gerais, o Realismo de origem francesa influenciou a produção teatral brasileira ao abordar nas peças temáticas sociais e psicológicas de forma sutil e leve, que mais tarde ecoariam nas produções teatrais do Modernismo.
Outro marco importante do século XIX foi a abertura do Ginásio Dramático em 1855, quando Joaquim Heliodoro ajudou a consagração da comédia como gênero dramático mais popular à época com esse novo teatro em que eram encenadas as peças francesas mais modernas de então.
O século XX nasceu para o teatro ainda muito ligado a produções sem aspectos modernistas no Brasil, assim, eram populares o teatro de variedades, as companhias estrangeiras com encenações trágicas e óperas de elaboração clássica e elitista, além é claro das onipresentes comédias. De forma incipiente e amadora, companhias como Teatro de Brinquedo (1928), Teatro do Estudante (1938), Os Comediantes (1938), Teatro Experimental de São Paulo (1939) e Teatro de Amadores de Pernambuco (1941), além de poucos atores profissionais como Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo, foram importantes para se entender o início do desenvolvimento de ideias modernistas na produção teatral brasileira.
O Modernismo seria sentido de forma contundente apenas com a obra de Oswald de Andrade, “O Rei da Vela”, que só seria encenada por José Celso Martinez Corrêa na década de 1960. Entretanto, para a maioria dos historiadores, a encenação de “Vestido de Noiva” (1943) de Nelson Rodrigues (1921-1980) dirigida por Zbigniew Marian Ziembiński (1908-1978), em pleno Estado Novo, inauguraria o moderno teatro brasileiro do ponto de vista da concepção e da encenação teatral, que, nesse caso, eram muito influenciadas pela estética expressionista.
Mais tarde, Nélson Rodrigues seria por muitos considerado o maior dramaturgo brasileiro por causa de uma vasta obra em que rivalizam a qualidade estética e formal inquestionáveis e a capacidade dele de questionar a sociedade e os tabus de então, em especial os da classe média, são elas: “Anjo Negro”, “Álbum de Família”, “Os Sete Gatinhos”, “A Falecida”, “Perdoa-me por me Traires”, “Beijo no Asfalto”, “Bonitinha mas Ordinária”, etc. Entretanto, se de um lado Nelson Rodrigues, o pioneiro, e mais tarde os autores politicamente engajados Augusto Boal (1931-2009), Oduvaldo Vianna Filho (1936-1976) e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) buscavam uma produção teatral genuinamente brasileira; de outro estava uma série de encenadores e diretores teatrais vindos da Europa em consequência da Segunda Grande Guerra como Adolfo Celi, Gianni Ratto, Alberto D’Aversa, entre muitos outros, que traziam as referências europeias de produção teatral, formação de atores, montagem e direção teatral, que pouco contribuíram para uma identidade brasileira para a o teatro feito no Brasil, mas sem dúvida propiciaram um avanço na linguagem do teatro brasileiro. Ziembinski seria uma exceção entre esses diretores europeus que se radicaram no Brasil, por sua constante contribuição com a criação teatral genuinamente brasileira em função do seu envolvimento intenso com o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC, 1948), etc.
Além disso, Ziembinski também seria responsável por estabelecer a função de diretor de teatro no Brasil, antes disso caracterizada pelo papel do encenador que apenas distribuía papeis com as falas e ordenava as falas em cena. Contribuiu também com a noção contrária ao costume no teatro profissional de então, ensaiar poucas semanas antes da estreia da peça, pois, na peça “Os comediantes”, que foi ensaiada por meses antes de ser apresentada ao público, estabeleceu-se um novo padrão que seria seguido pela maioria das montagens teatrais no Brasil.
Ao longo da década de 1960, surgiram a partir da fragmentação do TBC e de variadas referências no campo do teatro e das posturas ideológicas e políticas, por vezes explícitas, uma grande quantidade de grupos e companhias de teatro muito importantes para a história do teatro brasileiro. São considerados nesse contexto: o Grupo Oficina, o grupo teatral de Cacilda Becker, o Teatro dos Sete, o Teatro de Arena de São Paulo, a Companhia Celi-Autran-Carrero, entre muitos outros. Em virtude dessas muitas novidades no campo estético, político e cultural na dramaturgia brasileira, era possível no início da década de 1960 prever um intenso avanço e uma profunda diversificação da produção teatral no Brasil, entretanto esse processo foi boicotado pelos militares após o Golpe Militar de 1964, e, após o AI-5, a censura perseguiu diversos realizadores de teatro que foram obrigados a parar seus trabalhos ou exilar-se no exterior. Entretanto, ainda que as produções tivessem diminuído, a criação teatral alcançou altos níveis de qualidade pelas ideias e criações de autores como Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Antônio Callado, Osman Lins, Ariano Suassuna, Dias Gomes, etc.
A partir da década de 1980, com o fim do regime militar, com um país em crise econômica e com a consolidação da televisão como meio de informação e entretenimento da maior parte da sociedade, as pessoas envolvidas com o teatro passaram a questionar a função, a linguagem e a produção teatral por causa da especulação de que o teatro poderia perder ainda mais público no Brasil. Como resposta a essas questões, realizadores uniram-se mais uma vez em grupos como o Galpão para reavaliar e experimentar novas linguagens dramáticas.
Um dos primeiros espetáculos icônicos desse período contemporâneo da produção teatral brasileira é a montagem de “Macunaíma” adaptada por Sábato Magaldi e dirigida por Antunes Filho. Esse espetáculo inaugura uma fase de diretores-criadores no teatro brasileiro, em função da forte interferência deles na concepção de como o texto seria encenado quanto à cenografia, à iluminação, ao figurino, etc. No fim do século XX e no início do XXI, destacam-se na cena teatral brasileira nomes como Maria Adelaide Amaral, Gerald Thomas, Gabriel Villela, Moacyr Góes, Mário Viana, Parlapatões, Sátiros, Grupo Espanca, Grupo Galpão, Tapa, Ornitorrinco, etc.
Além disso, o Governo e a iniciativa privada passaram a contribuir de forma importante para o custeio de produções que seriam inviáveis sem esse apoio e absolutamente inacessíveis a praticamente todos os brasileiros. A televisão, em especial a Rede Globo, também cumpriria um papel positivo para o fomento do teatro ao dialogar com ele em obras televisivas com diversos elementos cênicos e com uma abordagem teatral do enredo, da cenografia ou mesmo da atuação dos atores. São exemplos dessa iniciativa “Hoje é dia de Maria”, “Capitu”, “Pedra do Reino”, “Som e Fúria”, “Decamerão”, etc.

Teatro nas Orientações Educacionais do Ensino Médio

Como complemento, segue citação de parte das Orientações Educacionais do Ensino Médio, produzidas pelo MEC, como mais uma ferramenta para nortear seus estudos.
“3.2 Teatro
3.2.1 Código
Estruturas morfológicas
Movimento, voz e gesto. Espaço cênico. Texto, gênero e partitura cênica. Funções (atuação, direção, caracterização, iluminação, sonoplastia, figurino, maquiagem, etc.).
Estruturas Sintáticas
Jogos tradicionais e jogos teatrais. Improvisação, interpretação e recepção de cenas.
Montagem. Relação entre palco e platéia, etc.
A experimentação da linguagem teatral dá-se mediante o envolvimento do estudante com os elementos referentes à estrutura dramática (ação/espaço/personagem/público), conforme indicam os elementos arrolados, os quais não exaurem as inúmeras possibilidades que se apresentam a esse campo investigativo.
Assim, não há um ponto de partida nem muito menos de chegada, uma vez que o processo do aprender a estudar e a explorar a linguagem teatral traduz, por si, os objetivos referentes ao desenvolvimento do currículo na sala de aula. A escolha de um conteúdo ou de um determinado agrupamento de conteúdos favorece o compartilhamento de descobertas, trocas, reflexões e análises das propostas de trabalho do professor.
Na cultura do ensinar e aprender teatro, o que mais importa não são os procedimentos estáticos, a fixação na história, nos estilos ou nos elementos da linguagem em separado, mas sim a capacidade de exercer um diálogo de “outra” natureza em sala de aula, de conhecer a si e ao outro, de conviver com o diverso e com a ambigüidade, processo no qual o jogo teatral é concebido como uma estratégia construtiva, na acepção piagetiana, que, pelo trabalho pedagógico, evolui da brincadeira e do “faz-de-conta” à apropriação do conhecimento cênico (KOUDELA, 1998).
Assim, é importante que a abordagem dos códigos da linguagem teatral tenha organicidade, tanto no panorama interno quanto na perspectiva interdisciplinar, considerando todas as outras fontes de conhecimento possíveis e o contexto sócio-histórico.
3.2.2 Canal
Exploração de procedimentos e formas utilizadas tradicionalmente pela escola, palco ou rua (dramatização de situações, temas, transposição de textos etc.).
Relacionamento com as mídias cênicas disponíveis na atualidade (cinema, vídeo, internet e outros), tendo em vista a compreensão da idéia de autoria, de encenação, das funções teatrais, dentre outras possibilidades atinentes à linguagem. Em relação aos canais de criação, veiculação e recepção disponíveis ao ensino de Teatro, as possibilidades são tão diversificadas que, parafraseando Lope de Vega, bastam dois estudantes, um sonho… e obviamente o professor! A rigor, na própria sala de aula, com todas as dificuldades que se apresentam ao processo de ensino-aprendizagem, a superação dos limites tradicionalmente impostos pela técnica da atuação no palco favorece a criação de propostas que podem ser remetidas à reflexão estética e pedagógica, envolvendo, dialogicamente, a participação direta dos jogadores atuantes e dos observadores. Além disso, tal como ocorre nas demais linguagens da arte, a interação entre forma e conteúdo, materiais e suportes, processo e produto são faces de uma mesma moeda, bem como estratégias de construção cotidiana do currículo.
3.2.3 Contexto
• Do texto, da obra, da partitura cênica
A elaboração de trabalhos no contexto da sala de aula, a leitura e a adaptação de textos dramáticos de diferentes gêneros, estilos, épocas, bem como a experimentação de diferentes formas de montagem cênica (tradicionais, tecnológicas, etc.), são algumas das possibilidades que se apresentam ao trabalho docente. Nesse sentido, o contato com as propostas de representação dramática presentes na cultura universal e com suas diferentes narrativas é crucial para o envolvimento dos estudantes nas atividades de Teatro, sem que sejam priorizados certos procedimentos em relação a outros, ou seja, sem julgamento de valor entre a “obra” produzida no âmbito da sala de aula ou fora dela, seja erudita ou popular.
• Do aluno, do professor, da escola, da comunidade
A recepção de trabalhos cênicos produzidos pelos estudantes, por grupos amadores ou profissionais, e a apreciação das manifestações produzidas por diferentes grupos sociais e étnicos – cavalhada, congada, pastoril, bumba-meu-boi, etc. –, reportam-se à capacidade de refletir sobre os códigos e os canais referentes à linguagem teatral. Participando do processo artístico com seus alunos, o professor amplia as oportunidades de aprendizagem dos participantes, fazendo uso das diversas situações em que a linguagem teatral possa manifestar-se. Assim, conhecer as manifestações da cultura local, assistir na sala de aula a uma cena de novela, peça publicitária ou filme e compreender o ambiente das mídias, assim como partilhar e trocar funções no palco e na platéia, dentre outras possibilidades, é propiciar um valioso repertório relativo ao domínio da linguagem, contextualizando a relação texto – obra.”

Referências bibliográficas

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. São Paulo, Ed. Perspectiva, 2000.
CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo, Ed. Palas Atena, 1990.
CARLSON, Marvin. Teorias do teatro; Estudo histórico-crítico dos gregos à atualidade. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Ed. da Unesp, 1997 (Prismas).
D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 2 – Teoria da lírica e do drama. São Paulo: Ática, 1995.
MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. Série Fundamentos, Editora Ática, São Paulo, 1986
PAVIS, Patrice. Dicionário do Teatro. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1999.
PRADO, D. de A. O teatro brasileiro moderno, São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.
VASCONCELLOS, Luiz Paulo. Dicionário de teatro. Porto Alegre: L&PM Editores, 1987.
ROSENFELD, A. O Teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985.
ROSENFELD, A. Teatro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Coleção Debates).

Deixe uma resposta