Dança no Enem – conceito, histórico, tipos e intersecções

Por Estéfani Martins

Fonte: https://www.dancastipicas.com/brasileiras/dancas-indigenas-brasileiras/

“A dança é uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.”
(George Bernard Shaw)

“Quando eu nasci eu já dançava.”
(Mario de Andrade)

“A dança, por sua vez, também possui vinculações étnicas, culturais e históricas, bem como relações de gênero a serem discutidas na escola.”
(Orientações curriculares do Ensino Médio – MEC)


Dança: o conceito

A dança, em linhas gerais, pode ser compreendida como uma manifestação artística que consiste em movimentar o corpo em um ritmo e com algum senso estético com o intuito de manifestar sentimentos e ideias por meio de uma linguagem corporal que pode ser tanto baseada na espontaneidade e no improviso quanto em passos e movimento pré-determinados. Pode ou não ser associada a uma música, ainda que a dança ao som de uma manifestação musical seja o que mais comumente ocorre.
Historicamente, a dança foi uma forma de arte muito valorizada desde a Antiguidade (Egito e Grécia) em função de suas múltiplas e complexas implicações religiosas, já em outras sociedades teve uma função variada associada a tradições de fertilidade, cultos religiosos, entretenimento, lazer, etc. Caracteriza-se por movimentos corporais coreografados ou espontâneos e improvisados, quase sempre acompanhados de uma trilha musical que sugere a cadência, a intensidade e a expressividade dos movimentos em questão. Essa manifestação artística pode ainda ser vista como uma das muitas formas de organização da linguagem corporal.
Como muitas artes, a dança é vista de formas muito diferentes por distintas comunidades, por exemplo, como forma de entretenimento e socialização estritamente, como é o caso dos passos de dança em carnavais de rua como o de Olinda, ou como uma forma de transe coletivo motivado pelo movimento circular e ritmado de fiéis de algumas religiões, como é o caso do ritual associado a comunidades religiosas como o Santo Daime. Como expressão artística, a partir de uma ótica não pragmática, a dança admite escolas específicas que produzem formas diferentes de pensar e executar movimentos corporais como forma de arte.

Uma breve história da dança

Há registros confiáveis de que o homem dança há milhares de anos. Possivelmente, como forma de afastar ou pedir a chuva, de conseguir resultados melhores para uma caçada ou mesmo de adorar algum deus, enfim, como uma expressão associada a práticas mágicas ou religiosas do homem daquele período, logo pragmáticas.
Nas cavernas de Lascaux, na França, há pinturas rupestres que mostram nitidamente grupos de humanos em situações que remetem a uma forma primitiva de dança. Como para esses povos aparentemente o que se pintava nas paredes das cavernas era de crucial importância como situações de caça, pode-se inferir que a dança ocupava posição importante na vida dessas comunidades.
Isso ocorre provavelmente desde as primeiras organizações sociais humanas razoavelmente complexas, quando já era possível pensar na possibilidade de que o homem era capaz de produzir simbologias abstratas, que fariam com que ele pudesse associar uma forma de dança primitiva a maior possibilidade de que o inverno fosse menos rigoroso, por exemplo.

A dança, por milhares de anos e em muitos locais do planeta, foi uma possibilidade corporal prioritariamente de homens, sobretudo em danças populares. Apenas nos séculos XIX e XX, que as mulheres emanciparam-se o bastante para poderem participar ativamente, por exemplo, de danças teatrais mais frequentemente, embora desde o início da Era Moderna tomassem parte de danças de salão como pares de homens. Em danças folclóricas, nos séculos anteriores, já havia presença perceptível de mulheres nessas expressões artísticas, por serem quase sempre danças comunais que envolviam toda comunidade. Ainda hoje, em certas regiões da União Soviética, existem danças matrimoniais em que as mulheres não tomam parte dos movimentos corporais, a não ser como referencial para os homens dançarem em torno delas, principalmente da noiva.

No Egito, a dança, em função da influência opressora da religião na vida egípcia, tinha características ritualísticas e sagradas apenas, já que a dança era executada apenas em funerais, casamentos e em homenagem aos deuses, em especial Osíris, deus da vegetação e da vida no além.
Na Antiguidade Clássica, em especial na Grécia, a importância da religião continua a nortear o desenvolvimento da dança, pois os gregos acreditavam no poder mágico e inebriante da dança, tanto que vários deuses eram cultuados por intermédio dessa manifestação artística. Era uma prática normalmente coletiva, assim como no coro das peças teatrais de então, nas quais era um componente cênico muito importante. Em Roma, a dança entra em decadência, pois os romanos apreciavam pouco essa forma de arte, o que a limitou a coreografias que simulavam combates ou a espaços em que a dança estava associada exclusivamente ao lazer.

A história da dança como forma artística, inscrita numa ideia de arte mais estética e associada à fruição, demonstra as inúmeras mudanças pelas quais passou o entendimento da dança não apenas por parte de seus criadores e dançarinos, mas também de seu público, que passou a exigir cada vez mais em diferentes níveis dos espetáculos de dança. Um marco dessa transição é o início da Era Moderna.
As danças populares e folclóricas são um marco importante na história dessa arte, pois foi certamente a partir de variantes rudimentares e antigas delas, repassadas pelo exemplo e pela oralidade por milhares de anos, que a dança desenvolveu-se como forma artística e como técnica corporal. Isso continuou a ocorrer ao longo da Idade Média, quando formas mais técnicas de dança foram coibidas pela tradição católica que entendia como profano e pagão movimentar-se como praticamente qualquer dança exige. Entretanto, entre as camadas populares, a dança desenvolveu-se em grupos mambembes de teatro e circo e em festas camponesas. Nesse contexto, era uma atividade artística grupal, com pouco ou nenhum espaço para a valorização de manifestações individuais e espontâneas.

O Balé Clássico, que começa a se desenvolver no Renascimento, baseado nos valores da burguesia nascente, no preciosismo técnico, em estudos do movimento, nas narrativas surreais e nos espaços idílicos que norteavam a coreografia. Assim, esboçou-se uma forma de dança que seria conhecida pelo rigor, pela disciplina, pelos movimentos coreografados e estilizados, pela complexidade da execução, etc. Foi um contraponto à espontaneidade da dança na Idade Média e à temática religiosa das danças no período pré-romano.
O termo balé, no período renascentista “baletto”, significava um conjunto rígido de passos, ritmos e coreografias tornado moda na Itália que logo chegaria à França no século XVI, por meio da Rainha Catarina de Médici, que incentivou a primeira montagem conhecida de balé que inaugura a tradição de balé clássico que alcançou a atualidade, foi o “Ballet Comunique de la Reine” em 1581, que durou aproximadamente seis horas e foi apresentado para uma plateia de milhares de pessoas.
No século seguinte, que é considerado por muitos historiadores da dança como o século do balé, essa forma erudita de dança deixou os salões da elite para tomar os palcos definitivamente, o que determinou o surgimento do que pode ser chamado de espetáculo de dança, enfim o balé de corte torna-se teatral. Além disso, são criadas as posições consagradas e tradicionais do balé clássico como o “entrechat” e o “Grand jeté”.

Ao longo do século XVIII, o balé profissionaliza-se em todos os níveis e desenvolve-se como uma expressão cênica requintada, esplendorosa e bem cuidada em função dos cenários, figurinos e execução geralmente impecáveis. Além disso, o balé passa a ter com frequência um forte apelo narrativo, já que histórias passam a ser contadas nos espetáculos com as inovações de Jean-Georges Noverre, que apresentou em 1789 o primeiro balé sem as características operísticas que redefiniriam inclusive os movimentos mais contidos e sem saltos típicos do balé até esse momento. Ao montar o balé “Les caprices de Galathée”, Noverre contesta e rompe com a tradição anterior ao propor certo viés dramatúrgico, expressivo e mímico ao balé, daí o termo “drama-balé-pantomima” usado para se referir a essa nova forma de entender essa expressão artística. Ele também muda as roupas dos bailarinos ao eliminar as perucas, as máscaras e as roupas pesadas do figurino para dar lugar à indumentária leve ainda usada atualmente por bailarinas e bailarinos clássicos, com o intuito de emprestar mais leveza, graciosidade e liberdade aos movimentos do corpo.
O Romantismo na dança configura-se como influenciador da perda de importância do papel do bailarino em cena, que passa normalmente a servir prioritariamente de apoio para os passos da bailarina. Nesse período, passa-se a usar sapatilhas em cena. No século XIX, o balé clássico firma-se como uma expressão artística muito valorizada, sobretudo pelos mais abastados, o que fez surgir importantes companhias de balé na Itália, França e Rússia.

Ao longo do século XIX, mas especialmente na aurora do XX, desenvolveram-se entre bailarinos e bailarinas de formação clássica uma visão mais autônoma, improvisada e individual esteticamente em relação às possibilidades de movimentação do corpo, esse processo de contestação e distanciamento do balé clássico foi muito influenciado pelas muitas vanguardas estéticas de então, pelo questionamento dos rigores teóricos e técnicos do balé clássico e pela ebulição nas artes que as ideias modernistas propiciaram. São expoentes desse momento Martha Grahan, Isadora Duncan, Vaslav Nijinski, entre outros. Com espetáculos como a “Sagração da primavera”, montagem de Nijinski com música de Stravinski, uma nova fronteira para a dança é aberta e, assim, consolidaram-se os pilares da dança moderna nesse período que são a referência crítica a temas sociais e políticos, o estudo profundo do movimento, a possibilidade de prescindira da música e mesmo a valorização do silêncio, a incorporação frequente de referências populares, o diálogo com outras linguagens artísticas, etc.

Como uma consequência das ideias modernistas no universo da dança, nasceu a Dança Contemporânea que, por vezes, concilia-se de diversas formas com modos mais tradicionais de dançar, sem, contudo, interromper as propostas de inovação e ruptura estética e formal da Dança Moderna com as tradições clássicas. Nesse sentido, as formas contemporâneas de dança passam a fazer uso de adventos tecnológicos como o vídeo, o cinema, os aparatos modernos de iluminação; os movimentos do esporte; a referência a culturas marginais; etc., além de se deixar influenciar pelos ritmos e movimentos da sociedade da qual faz parte, tais como: a urbanização ampla e acelerada, a importância crescente dos meios de comunicação e informação, a crise da modernidade, o novo entendimento do corpo, as questões ecológicas, a contracultura, etc. Além disso, inauguram um tempo de ainda intensas mixagens e intersecções que ajudaram a tornar nebulosas as fronteiras entre teatro, música, dança e artes visuais. São exemplos desse tipo de experiência com a dança, grupos como Companhia de dança de Pina Bausch, Grupo Corpo, Quasar, Deborah Colker Cia de Dança, etc.
É consenso entre historiadores que a Dança Contemporânea consolida-se no pós-2ª Guerra, especialmente na década de 1960, como forma de protesto ou rompimento com os cânones oriundos das tradições iniciadas na Renascença, em especial o balé, mas também como forma de diálogo com as inúmeras questões novas que confrontavam o homem do século XX com as consequências negativas e positivas do desenvolvimento tecnológico, com os dramas impostos pela urbanização acelerada e intensa, com a questão do gênero e da sexualidade na sociedade, com a elitização da arte, etc. Tal como ocorreu um pouco antes nas Artes Plásticas, a Dança Contemporânea, em função das muitas experiências e rupturas que lhe são características, muitas vezes flerta com o hermetismo, ou mesmo é produto da própria desconstrução da ideia mais convencional de dança.
Ao longo do século XX, a linguagem contemporânea da dança desenvolve-se e aprimora-se com profundas investigações de coreógrafos e bailarinos a respeito da influência do espaço, dos limites do movimento e das possibilidades da improvisação na dança. Isso faz com que esse período da história da dança seja muito difícil de definir ou enquadrar, também porque a liberdade ampla e a experimentação constante são razões para a impossibilidade de impor-lhe limites, pois seu principal pilar de orientação como experiência artística é justamente negar a existência deles.
Paralelamente a todo o processo da história da dança no sentido mais artístico e performático, desenvolveram-se diversas danças populares ao longo dos séculos XIX e XX que refletiram comportamentos, modismos, predileções estéticas, mudanças culturais e diversidade musical. Isso é muito bem exemplificado no filme “O baile” de Ettore Escola de 1983, que, por meio das mudanças nas danças populares e de salão, o cineasta conta de forma inusitada e rica de significado a história do século XX, com destaque entre as décadas de 1920 e 1980.
No mundo, tornaram-se muito populares ao longo do século XX danças ou ritmos musicais pelos quais determinadas danças manifestavam-se, a saber: foxtrote, twist, rock, break (Hip Hop), bolero, etc. No Brasil, manifestações como o samba, a gafieira, a marchinha, o baião, o xaxado, o xote, o axé, a lambada, etc., são cruciais para se entender as mudanças sociais, estéticas e comportamentais da sociedade brasileira.

A dança como linguagem

A dança é uma das linguagens artísticas mais antigas até pela sua pouca exigência quanto a aparatos tecnológicos e mesmo formação acadêmica para ser realizada ainda que em um nível muitas vezes rudimentar. Entretanto, desde as formas de dança mais eruditas como o Balé Clássico até as danças populares como o Frevo e o Catira, em todas há elementos que as constroem como manifestações artísticas e corporais. Segundo a pesquisadora Judith Lynne Hanna, os elementos da linguagem da dança, que combinados permitiriam a compreensão da dança de acordo com o estilo, a escola ou mesmo a função, são:
• Espaço: direção, nível, amplitude, foco, ordem e forma.
• Ritmo: tempo, duração, ênfase e compasso.
• Dinâmica: força, energia, tensão, relaxamento e fluxo.
• Forma: relação estabelecida entre quem dança com o outro, com o espaço e com objetos.
• Locomoção: caminhar, pular, correr, saltar, rolar, estirar-se, rodopiar, etc.
• Gesto: movimentos como rotação, flexão, extensão, vibração, rolamento, salto, etc.
• Frase corporal: movimentos em sequência capazes de denotar uma afirmação específica.
• Motivo: parte do movimento apresentada de maneiras distintas: rápido ou lento, forte ou suave, etc.

Dentre as muitas possibilidades de se abordar a classificação dessa forma de arte tão dinâmica, quanto multifacetada, faz sentido pensá-la sob várias perspectivas que alcancem vários elementos constituintes e conceituadores, eis alguns deles:
Quanto aos envolvidos no processo da dança:
• dança solo (ex.: solista no balé, algumas coreografias do sapateado, break, passista do frevo, etc.).
• dança em dupla (ex.: tango, salsa, valsa, maxixe, lambada, o mestre-sala e a porta-bandeira de escolas de samba, etc.).
• dança em grupo (ex.: minueto, quadrilha, danças de roda, maracatu, maculelê, etc.).

Quanto à razão ou estilo:
• dança folclórica (ex.: catira, carimbó, reisado, etc).
• dança cerimonial ou religiosa (ex.: danças indianas, dança sufi, etc.).
• dança étnica (ex.: dança árabe, danças indígenas, etc.).
• dança terapêutica (ex.: auxílio no tratamento de doentes psiquiátricos, etc.)
• dança erótica (ex.: can can, striptease, etc.).
• dança cênica ou performática (ex.: balé, danças contemporânea e moderna, etc.).
• dança social (ex.: dança de salão, axé, samba, etc.).

Como complemento, seguem citações de partes das Orientações Educacionais do Ensino Médio, produzidas pelo MEC:
“3.4 Dança
3.4.1 Código
Elementos morfológicos
O corpo humano, entendido como totalidade (mente e físico), ativado e capacitado para explorar suas possibilidades de movimento e assim desenvolver-se como inteligência múltipla.
Tempo coreográfico, espaço coreográfico e qualidade do movimento – seus componentes espaciais (direções, planos, dimensão, caminho realizado), seus componentes temporais (velocidade, duração, acentuação e periodicidade de incidência desses fatores) e os componentes de sua intensidade (peso, esforço, fluxo e impulso).
Estruturas sintáticas
Organização do movimento a partir da priorização de um dos seus elementos, como desenho simétrico/assimétrico; velocidade rápida/moderada/lenta; fluxo solto/conduzido, contínuo/descontínuo; assim como impulso central/periférico. Organização do movimento a partir da combinação desses elementos, resultando em ações básicas como empurrar, socar, torcer, deslizar, etc. Organização em grupos funcionais de movimento: gestos, formas de andar, corridas, saltos, giros, quedas e recuperação. Composição a partir de células, repetições, variações, blocos, cânones, simetrias, assimetrias, polirritmia. Criação a partir de diversos estímulos: materiais, imaginários, emocionais, factuais, individualmente ou em grupo.
Tradicionalmente o tempo, o espaço, a forma e o movimento sempre foram considerados elementos da dança. É importante lembrar que a forma é, de fato, o resultado da composição dos aspectos espaciais, temporais e de intensidade do movimento, não constituindo, portanto, propriamente um elemento. Isso não significa dizer que não se possa, ou mesmo se deva pensar, organizar, criar o movimento em função de sua forma.
Essa seria mais uma possibilidade de organização e estudo do movimento, incluída nas possibilidades citadas anteriormente. A organização dos elementos da dança compõe a estética da obra, e essa organização variou ao longo da história, por vezes caracterizando escolas, por vezes desconstruindo essas caracterizações. Dessa forma, o estudo de seus elementos é um instrumento eficaz tanto para a experimentação do fazer criativo na dança quanto para a análise dos estilos e das manifestações culturais dessa linguagem. Na organização espaço-temporal da dança, o ser humano revela sua relação com o mundo: a dança constitui, então, além de um instrumento para o autoconhecimento, um instrumento para o conhecimento do outro em seu espaço, para a compreensão vivencial da natureza (aqui incluída a natureza cultural humana) e, conseqüentemente, para a compreensão da própria sociedade.
A abordagem artística dos movimentos corporais propiciada pela dança, baseada na expressão da experiência vivencial do mundo pelo indivíduo, é uma faceta específica do conhecimento do próprio mundo. Não basta “saber” o mundo e viver nele para conhecê-lo; é preciso sentir e perceber como se relacionar com ele, como imaginar essa relação, traduzindo tudo isso em uma criação expressiva.
O conhecimento do mundo passa, pois, pela vivência corporal dos seus elementos, nos aspectos físico-objetivos, sensoriais, pré-simbólicos e simbólicos. Daí a importância do estudo corporal-criativo do tempo, de espaço, da intensidade do movimento e da forma deles resultante na educação escolar. Exemplificando: não basta saber sobre o espaço (estudado em Geografia, Física, História, ainda que de forma interdisciplinar); é preciso vivenciá-lo corporalmente, sentir como nos relacionamos com ele, como podemos organizá-lo, reorganizá-lo, transformá-lo por meio do sensível, por meio de uma consciência estética.

3.4.2 Canal
O corpo humano, em sua aparição fenomenológica.
O corpo humano virtualizado, digitalizado pelas diversas mídias contemporâneas: televisão, vídeo, cinema, computador.
A aparição presencial do dançarino é, ainda hoje, em tempos de virtualização intensa – e talvez por isso mesmo –, um aspecto importante dessa linguagem artística, além de fundamental na função educativa da dança tanto do ponto de vista do aluno-espectador quanto do aluno-criador. É no instante do “aqui e agora” que trocas sensoriais, estéticas e éticas se dão entre espectador e dançarino. O corpo humano virtualizado, no entanto, é um importante canal de experimentação e pesquisa da dança atual e deve estar presente na educação escolar, principalmente no ensino médio, quando os alunos deparam mais intensamente com as mídias citadas anteriormente. Esse “dançar mediado” traz especificidades resultantes do diálogo da dança com as demais linguagens, entendendo aqui, como linguagem, também as novas tecnologias.

3.4.3 Contexto
• Do texto, da obra
Identificar o contexto em que as obras coreográficas são criadas é fundamental para ampliar a compreensão das relações existentes entre esse contexto e a organização dos movimentos na obra. Toda composição traz marcas do seu criador, do seu tempo, dos seus condicionantes. O exercício dessa contextualização, além de dar acesso ao conhecimento da história da dança, sua origem, seus determinantes socioculturais e sua evolução, instrumentaliza o aluno para a compreensão do seu próprio fazer na dança.
• Do aluno, do professor, da escola, da comunidade
Dançar não é só uma forma de expressão particularmente importante para os jovens, mas também para os adultos, que têm nela uma oportunidade de se reconhecerem culturalmente e socialmente. É preciso então trazer para o aprendizado da Dança a diversidade que hoje marca esse dançar, fazendo dialogar o legado das danças populares tradicionais e os festejos, as práticas contemporâneas, o pagode, o funk e outras danças da “moda”, com a expressão artística erudita, e esse diálogo deve ser pautado pelas características contextuais da escola e da comunidade onde esta está inserida, considerando-se todos os seus agentes: alunos, família, professores, funcionários, artistas locais e outros, abrindo espaço na escola para a experiência da oralidade, do saber não formal, das tradições e dos movimentos que dão identidade a essa mesma comunidade.
• Do ensino médio
Dar acesso ao conhecimento da diversidade da produção coreográfica, das diferentes formas de organização do código estético-motor praticado por diferentes culturas e estratos sociais é objetivo fundamental do estudo da Dança. No entanto, não se deve privar o aluno adolescente ou adulto das importantes descobertas que o processo criativo em dança propicia para aquele que o pratica, descobertas essas que não se extinguem com as primeiras experiências, mas constituem novos desafios e desejos expressivos a cada nova fase da vida humana. Processo e produto estão em permanente transformação, pois assim está o ser humano, modificando-se a partir de si, do outro, das influências sociais, culturais, científicas
e, principalmente, a partir do próprio processo criativo.”
“Duas sistematizações no ensino da Dança merecem atenção. Em uma perspectiva, tem-se o desenvolvimento da consciência corporal, utilizando os conceitos oriundos da educação somática, entendida como atividade em que o corpo é trabalhado de modo que integre todos os aspectos que o compõem: social, espiritual, psíquico, físico, etc. Desenvolvem-se práticas baseadas nas técnicas de Alexander e Feldenkrais, tais como a Body-Mind-Centering, Eutonia, entre outras. No Brasil, Klauss Vianna e José Antonio Lima representam essa vertente.
Outra influência marcante é a da criação coreográfica que utiliza a exploração espacial baseada nos preceitos de Rudolf von Laban (1879-1958). Este coreógrafo austro-húngaro criou um movimento que revolucionou a maneira de se pensar o corpo em movimento. Ele desenvolveu um método de análise do movimento definindo os elementos que o compõem. Elaborou igualmente um método de escrita em dança, a Labanotiation. Seu trabalho tem diferentes aplicações, que vão da educação e da criação coreográfica ao trabalho terapêutico, sendo introduzido no Brasil por Maria Duschenes.”

Referências bibliográficas

BOUCIER, P. História da Dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
FARO, A. J. & SAMPAIO, L.P. Dicionário de Balé e Dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
FARO, Antônio José. Pequena História da Dança. Jorge Zahar Editora. Rio de Janeiro. 1986.
NAVAS, C. Dança brasileira no final do século XX. In Dicionário SESC, A Linguagem da Cultura. Organização Newton Cunha. São Paulo: Perspectiva, 2003.
OHTAKE, R. Danças populares brasileiras. São Paulo: Rhodia, 1989.
VIANNA, K. A Dança. São Paulo: Siciliano, 1990.

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